Crônica | Teologia não é catequese: é pensamento que reza e reflete (O papel da Teologia na formação acadêmica e cultural)
- João Antonio Saraiva Leão Neto
- 15 de mai.
- 2 min de leitura
por João Saraiva
A formação acadêmica e cultural é um processo complexo que envolve diversas áreas do conhecimento, e a Teologia desempenha um papel fundamental nesse contexto. Mesmo para aqueles que não seguem uma fé religiosa específica, o estudo teológico pode trazer contribuições valiosas para a compreensão da história, da filosofia e da sociedade como um todo.

É comum que, nas escolas, se confunda Teologia com ensino religioso — ou pior, com catequese. Durante anos, vi a disciplina ser relegada a um lugar quase decorativo no currículo, como se sua função fosse apenas colorir o boletim com boas intenções. Mas a verdade é que a Teologia, quando levada a sério, é uma das formas mais refinadas de pensamento humano.
Dizer que a Teologia é “o estudo sobre Deus” é dizer pouco. Ela é, acima de tudo, um estudo sobre o humano em relação ao absoluto, ao mistério, ao tempo, ao outro. É a pergunta insistente de quem sofre, reza ou silencia diante da morte, da injustiça, da beleza, da culpa. A Teologia não oferece respostas prontas — ela tensiona perguntas que atravessam todas as épocas: Por que o mal? O que é o bem? Há sentido no sofrimento? O que sustenta a dignidade de uma vida?
Nas universidades, a Teologia é irmã da Filosofia, da História, da Antropologia, da Linguística. Ao estudar os textos sagrados — seja a Bíblia, o Alcorão, o Bhagavad Gita ou os escritos de Teresa de Ávila —, o teólogo não está ensinando a crer, mas lendo criticamente as fundações simbólicas de culturas inteiras.
E quem pensa que isso é coisa de gente de fé, engana-se: muitos dos melhores teólogos da história foram, antes de tudo, intelectuais inquietos, como Agostinho, Tomás de Aquino, Kierkegaard, Paul Tillich, Leonardo Boff, Rubem Alves. Todos eles lidaram com a dor e o mistério com um rigor que falta, muitas vezes, a certos discursos supostamente científicos.
Na prática, a Teologia nos ajuda a escutar melhor. Um educador que teve formação teológica percebe o que se esconde no silêncio de um aluno. Um psicólogo com bagagem teológica não banaliza o sofrimento religioso do paciente. Um gestor formado nesse campo é mais sensível às identidades que compõem uma escola, uma empresa, uma cidade.
Em um mundo onde a intolerância cresce na velocidade dos algoritmos, a Teologia pode nos devolver o exercício do diálogo. Não para igualar crenças, mas para lembrar que toda fé carrega uma busca comum: a de um mundo mais justo, mais pleno, mais habitável.
Na cultura, então, o impacto é incontornável. Como compreender a música de Bach, o teto da Capela Sistina, o discurso de Martin Luther King ou o Cântico das Criaturas de São Francisco sem alguma familiaridade com os fundamentos teológicos por trás? A Teologia está presente na arquitetura, na literatura, nas festas populares, na linguagem e até na política — ainda que disfarçada de tradição.
Por isso, não basta “dar aula de religião”. É preciso formar professores com sólida base teológica, capazes de ensinar com profundidade, de fazer pensar e não apenas repetir fórmulas morais. O mundo atual não precisa de fórmulas: precisa de consciência.
A Teologia não converte. Ela forma.E, nesse tempo de desinformação e superficialidade, pensar o sagrado com profundidade é um gesto revolucionário.



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